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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 528 – junho 2006

Na revista UFO:

 

DISCOS VOADORES E FÉ CATÓLICA

 

Em síntese: A existência de seres inteligentes em outros planetas é compatível com a fé católica. O que esta não aceita, são as interpretações de textos bíblicos tidos como expressões de viagens de Ets à Terra.

 

A Redação de PR tem recebido a Revista Brasileira de Ufologia, que encontra acolhida do grande público e deixa dúvidas na mente de leitores.

 

A revista procura evidenciar o aparecimento de discos voadores e seus tripulantes na Terra, citando ocorrências em Varginha (MG), no México, nos Estados Unidos... Enfatiza a participação da FAB ou dos militares do Brasil na pesquisa dos OVNIs (Objetos Voadores Não Identificados) ou UFO (Unidentified Flying Objects). - O assunto é discutido entre os peritos e depende de quanto os dados experimentais oferecem à reflexão. O que interessa a estas páginas, são questões relacionadas com os discos voadores e a fé.

 

1. Existência de ETs e Fé

 

A fé católica nada tem a opor à tese favorável à existência de aliens, como se diz abreviando a palavra alienígenas. Verdade é que no século XVI o Santo Ofício condenou Giordano Bruno (+1600) por professar a existência de outros mundos habitados; tal posição devia-se à mentalidade da época e não afetou a indefectibilidade do magistério da Igreja, que só se exerce em matéria de Fé e de Moral. No século XIX, porém, começou a se fazer ouvir uma série de vozes que apregoavam a conveniência de haver seres Inteligentes fora da Terra; argumentavam a partir do princípio de que tanta matéria esparsa pelo universo deve ter quem louve a Deus e lhe dê graças pelas suas obras. Assim escrevia o Pe. Secchi em 1817:

 

"A nós parece absurdo considerar essas vastas regiões como desertos despovoados; devem ser habitadas por seres inteligentes racionais, capazes de conhecer, homenagear e amar seu Criador" (Lê Soleil. Paris 1877, II 480).

 

Em 1888, Fontenelle defendeu a mesma tese no livro "Pluralité lês mondes", que ficou famoso. Nas décadas seguintes fizeram o mesmo dois pregadores da catedral de Notre-Dame de Paris: os Padres Félix O.P. (+1891) e Monsabré O.P (+1894).

 

Em nossos dias é unânime a aceitação da ortodoxia da tese favorável aos mundos habitados, cabendo à ciência dizer se tal possibilidade se realizou ou não.

 

Caso existam ETs, é certo que são criaturas do mesmo Deus que criou o mundo dos homens da Terra; mais nada se pode dizer sobre o seu relacionamento com Deus visto que não nos foi revelado. Ulteriores considerações a respeito se encontram em nosso Curso de Escatologia, Módulo 39, publicado pela Escola "Mater Ecclesiae" cujo TeleFax é 0 XX 21-2242-4552.

 

2. Existência de ETs na Bíblia

 

A discórdia entre a fé católica e a Ufologia de vário autores está na maneira de entender a S. Escritura. Esta maneira corresponde ao procedimento de Erich von Dãniken em seu livro "Eram os deuses astronautas?".

 

1. Erich von Dãniken é um jornalista alemão (não geólogo nem físico) que percorreu quase o mundo inteiro, observando rochas, montanhas, monumentos da civilização antiga... Impressionado por quanto encontrou, deixou que a fantasia trabalhasse e formulou a hipótese seguinte em sua obra "Eram os deuses astronautas?" (obra eivada de erros e imprecisões, que valeram ao autor um processo por ter cometido desonestidades e fraudes na redação do seu livro):

 

Nos tempos pré-históricos, a Terra foi freqüentemente visitada por astronautas provenientes de outros planetas. Portadores de civilização e técnica muito adiantados, foram tidos, pelos homens terrestres, como deuses; em conseqüência, os povos antigos passaram a falar de "deuses" em suas tradições (daí o título do livro: "Eram os deuses astronautas?"). Tiveram uniões sexuais com mulheres da pré-história - o que deu grande impulso à inteligência e aos talentos do nosso gênero humano. Os cosmonautas extraterrestres terão deixado na Terra vestígios da sua passagem (monumentos, máquinas, instrumentos de trabalho, etc.) e haverão ensinado aos homens numerosas técnicas para que fossem subindo no plano cultural.

Os pretensos astronautas seriam provavelmente habitantes de Marte.

 

2. Perguntamos: que pensar a respeito?

Antes do mais, convém notar que o autor não é um cientista, mas um jornalista, que interpretou fantasiosamente o que ele observou em suas viagens. As suas associações de idéias são freqüentemente forçadas e superficiais: o fato de que a natureza apresente rochas talhadas à semelhança das obras esculpidas pelo homem não é suficiente para dizer que foram trabalhadas por artistas marcianos. No Brasil mesmo há montanhas impressionantes, como o Dedo de Deus, a Verruga do Frade (Serra dos Órgãos), o Frade e a Freira (perto de Vitória, ES). As grutas de Maquine e Lagoa Santa apresentam salões subterrâneos, em que a erosão e os calcáreos produziram belíssimas obras naturais, semelhantes a renda, vestido de noiva, bolo de casamento, trono régio... Ora ninguém pensa em atribuir tais desenhos a artistas humanos.

 

Quem queira admitir habitantes em outros planetas, encontrará sérias dificuldades para tornar verossímil tal hipótese. Esta lança, pois, novas incógnitas ao estudioso. Com efeito, tais seres vivos e inteligentes provenientes de outros planetas deveriam ter constituição física e longevidade bem diversas dos nossos padrões comuns. Na verdade,

-   se nos limitamos à consideração do nosso sistema solar apenas, verificamos que as condições de existência diferem profundamente da Terra para qualquer outro planeta. Os seres vivos inteligentes que existissem em Júpiter deveriam poder não só sobreviver, mas mesmo sentir-se bem, à temperatura de - 140°C que caracteriza a superfície desse planeta;

-   se passamos para fora do nosso sistema solar, observamos que as imensas distâncias tornam altamente improvável uma visita de habitantes de tais regiões do espaço. Sim; além de ter que gozar de grande longevidade, tais seres inteligentes precisariam de veículos cuja velocidade ultrapassasse a da luz - o que só seria possível dentro dos parâmetros de outro sistema de Física (sistema que dificilmente poderia ser por nós concebido).

 

A arbitrariedade e a superficialidade de muitos se manifestam com toda a clareza quando abordam textos bíblicos, pretendendo interpreta-los segundo as suas opiniões. Muitos mostram que não conhecem, em absoluto, as regras óbvias da exegese bíblica, que implica o conhecimento das línguas originais (hebraico, aramaico, grego).

Eis alguns exemplos de superficialidade:

 

Em Gn 1, 26 Deus fala de si na primeira pessoa do plural ("Façamos o homem à nossa imagem..."). Isto não quer dizer que a Bíblia insinue multiplicidade de deuses, como pensa o jornalista. O plural, no caso, é intensificativo: Elohim (em lugar de El) quer dizer "o Forte ou o Poderoso por excelência".

 

Em Gn 6, 1s o texto sagrado nos diz que os filhos de Deus tomaram por mulheres filhas dos homens. No caso o texto bíblico está longe de insinuar marcianos, o contexto bem mostra que se trata de homens bons e mulheres pecadoras.

 

Em Gn 19, a destruição de Sodoma e Gomorra terá sido provocada pela explosão de uma bomba atômica lançada pelos astronautas!... -Ora os estudiosos explicam a ruína das duas cidades pela geologia da própria região. Esta é rica em betume e petróleo (grandes depósitos destes materiais foram encontrados na região do Mar Morto); também é marcada pela presença de gases. Ora um terremoto terá provocado a combustão de petróleo e dos gases, dando assim origem à terrível destruição descrita em Gn 19.

 

Há quem se impressione pelas notícias de que os sumérios viviam dezenas de milhares de anos (os Patriarcas bíblicos viviam centenas de anos). A fim de explicar estes dados, von Dãniken apela para a teoria da relatividade de Einstein e as viagens dos astronautas (num inciso, aliás, bastante confuso; cf. pp. 39s). - Na verdade, os séculos de vida que os antigos povos atribuíam aos seus primeiros reis ou Patriarcas, devem ser entendidos simbolicamente: designavam a autoridade e a venerabilidade de que gozavam tais heróis (todo mestre venerando é classicamente concebido como um ancião de cabelos brancos!). Não é preciso, portanto, procurar na matemática a interpretação da longevidade dos antigos, pois esta não tem sentido cronológico. Os Patriarcas bíblicos e os reis sumérios viveram quanto podiam viver os homens nos primórdios da história da civilização.

 

Em Ez 1 o ufólogo julga que o "carro de Deus" é uma nave espacial pilotada por "deuses" ou astronautas marcianos! - Na verdade, o "carro de Deus" é mero símbolo, que designa a presença de Deus em meio ao seu povo. O profeta descreveu-o ornamentado por animais, inspirado pela arquitetura da Babilônia; esta conhecia os Karibu, que tinham cabeça de homem, busto de leão, patas de touro e asas de águia!

 

3. Aparições

 

Quanto às aparições de Maria Ssma. e dos Santos aqui na Terra (em Lourdes, Fátima...), muitos ufologistas querem entendê-las como manifestações de ETs às criaturas tidas como videntes.

 

A respeito diga-se: tal explicação é totalmente gratuita e fantasiosa. Não há por que não aceitar que Deus tenha permitido que um(a) Santo(a) aparecesse a alguém para falar aos homens de maneira mais significativa, exortando-os à oração e à penitência.

 

- Na verdade, o fenômeno das aparições (fora as que as S. Escrituras referem) é de peso relativamente secundário na teologia católica. Algumas podem ser consideradas como autênticas manifestações de Cristo, da Virgem Maria ou dos santos, ao passo que outras são evidentemente espúrias. Entre estas, citem-se El Palmar de Troya, Natividade (RJ, no Brasil)...; entre as primeiras vão mencionadas Lourdes, Fátima, Paray-Le-Monial... É pelos frutos que se conhece a árvore; se o fenômeno se produz em contexto de autêntica oração, simplicidade, humildade, e redunda em benefícios espirituais e corporais seguramente comprovados, a Igreja aceita que possam ser intervenções do Senhor ou dos santos em vista de avivar a piedade e a penitência entre os fiéis; todavia nunca tais aparições se tornam objeto de fé obrigatória na Igreja. - Evidentemente, outras "aparições" ocorrentes em ambientes de charlatanismo ou histeria ou em contradição com os artigos da fé revelada são rejeitadas pela Igreja como inautênticas. A parapsicologia e as ciências afins explicam numerosos fenômenos de "aparições" que outrora eram atribuídas ao Além. Daí a reserva crescente das autoridades eclesiásticas frente a tais feitos extraordinários. A vida cristã não necessita desses portentos para reconhecer seu significado ou seu roteiro; as verdades reveladas pelos Profetas ou pelo Senhor Jesus são suficientes para levar o homem à plenitude da perfeição.

 

Quanto às aparições bíblicas, hão de ser entendidas em consonância com o gênero literário do respectivo livro bíblico. Em vários casos, a análise crítica do texto mostra que o autor sagrado quis realmente referir-se a uma intervenção sensível e extraordinária do Senhor Deus na história dos homens; principalmente as aparições de Cristo ressuscitado têm importância objetiva, visto que serviram para comprovar um acontecimento fundamental da história do Cristianismo: a ressurreição do Salvador. Todavia a Igreja não se empenha por nenhuma explicação da maneira como tenham ocorrido os fenômenos de aparições: não está excluído que alguns patriarcas ou profetas bíblicos tenham sido agraciados tão somente por alguma visão mental ou interior (visão que não era projeção subjetiva ou doentia da fantasia, mas autêntico efeito da ação divina sobre o vidente). A teologia católica julga que se deve manter sóbria no estudo de visões e aparições.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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