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PERGUNT E RESPONDEREMOS – junho 2004

Tendências sociopolíticas:

 

"JESUS EXORCISTA"

por Irineu Rabuske

 

Em síntese: O autor tem em vista atualizar a prática exorcística de Jesus. Em nossos dias a possessão diabólica está "secularizada"; ela consiste na opressão das classes mais humildes no tocante à saúde pública, à distribuição de rendas, à reforma agrária... O exorcismo há de consistir em uma renovação da sociedade sociopolítica e econômica. O autor não nega explicitamente a existência do demônio e a possessão diabólica, pois reconhece que a Igreja as professa, mas "privilegia" a nova interpretação. O livro assim concebido fica sempre ambíguo.

 

O Pe. Irineu J. Rabuske pertence ao clero da diocese de Santa Cruz do Sul (RS). É Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma e leciona em algumas Faculdades. Publicou recentemente o livro "Jesus Exorcista. Estudo exegético e hermenêutico de Mc 3, 20-30" ([1]). - Trata exaustivamente da possessão diabólica e do exorcismo, já que Jesus praticava exorcismos e foi acusado de estar possesso. A leitura do livro pode deixar o leitor confuso - o que dá oportunidade a análise e comentários da obra.

 

1. A tese do autor

 

 Rabuske começa sua explanação notando que muitos povos antigos conheciam fenômenos considerados possessão diabólica e exorcismo. Descreve os sintomas ainda hoje admitidos pela Igreja como possíveis indícios de possessão:

 

-   alteração da fisionomia do paciente que, de tranqüila, passa a ser convulsiva, apavorante e apavorada;

-   mudança de voz, de acordo com as mudanças fisionômicas;

-   a nova voz pretende ser a expressão da nova individualidade que se apodera da vítima, a qual parece então ter dupla personalidade;

-   movimentos dotados de força física fora do comum.

 

O autor nota que Jesus encontrou muitos pacientes assim afetados e lhes aplicou o exorcismo. Tal gesto tinha caráter simbólico, ou seja, tinha conotações políticas, significando a libertação do povo de Israel dominado pelo jugo romano. Eis como se exprime I. Rabuske:

 

"A missão do Messias está intimamente ligada à sorte política de Israel. Em Mc 5, 7 essa dimensão política também é evocada para a atividade exorcística de Jesus... Estamos diante de uma narrativa politicamente situada: dentro do conjunto do Império Romano, a partir da perspectiva dos excluídos, uma província constituída por um povo ocupado peia força dominadora do mundo daquele tempo" (p. 263).

 

O caráter "simbólico" politizante das ações (especialmente dos exorcismos) de Jesus é assim explanado pelo autor:

 

"Essas ações de Jesus extrapolam a esfera individual e têm efeito sobre a ordem simbólica do sistema vigente. É o que Ched Myers denomina de ação simbólica, conceito que serve para designar ações que não acabam em si mesmas, mas repercutem no corpo da sociedade e podem desencadear processos de mudança. Nisso está o aspecto político da prática de Jesus. Suas ações despertam esperanças no povo e reação do sistema estabelecido. Em Mc 5, 1-20, Marcos apresenta de maneira eloqüente essa dimensão política e econômica da prática de Jesus. Os gerasenos, como atores, representam a sociedade estabelecida, a qual se sente ameaçada pela prática de Jesus. Não é somente a sociedade local de Gerasa que está em questão,mas toda a sociedade do Império Romano, representado na legião'(Mc 5, 9)" (pp. 287s).

 

Prossegue o raciocínio do autor:

 

A missão de Jesus assim entendida deve ser continuada e atualizada. E como?

 

Rabuske registra dois modos de interpretar a possessão diabólica em nossos dias: o fundamentalista e o demitologizante:

 

O fundamentalismo supõe a real intervenção do demônio no corpo da pessoa possessa e aplica fórmulas e preces para eliminar o Maligno. Como exemplo disto seria a prática das denominações protestantes neopentecostais (das quais o autor cita um espécime; ver nota 1 abaixo). O fundamentalismo atribui todas as desgraças ao demônio e pretende removê-las mediante rituais religiosos. Rabuske não parece dar importância à diferença existente entre este modo de proceder e a atitude sóbria e prudente da Igreja Católica frente aos casos popularmente ditos "de possessão diabólica"; a Igreja só pratica o exorcismo depois de investigar ciosamente o caso para o qual não haja explicação científica.

 

1 "[...] um pastor pentecostal, na TV, tomou uma mulher, pretensamente possessa, pelo pescoço, e começou a berrar com o pobre bichinho que supostamente havia se alojado no corpo daquela senhora. Dizia o pastor: 'fala, Satanás!' A mulher encurvada, com voz alterada, presa nas mãos do pastor, retrucava: 'não vou falar'. O pastor começou a berrar: 'Ah é, você não vai falar? Então eu lhe ordeno, em nome de Jesus, fale!' A 'possessa' começou a se contorcer e o pastor sempre mais gritava: 'em nome de Jesus, fale!' Então a voz alterada da mulher dizia: 'não invoque este nome, não posso suportá-lo'. Depois de mais algumas tentativas do pastor, sempre em nome de Jesus, o demônio, trêmulo, começou a responder às perguntas do pastor. Dizia este: 'por que você está nesta mulher?' E ele respondia: 'por meio dela posso dominar outras pessoas. Ela é minha escrava'. O pastor, depois de calorosa entrevista com o príncipe das trevas, começou a expulsão: 'Em nome de Jesus, saia desta mulher!' Depois de três ou quatro tentativas, a 'possuída' caiu no chão e se contorceu, respirou aliviada. Levantou como quem desperta de um longo sono. A mulher agora estava normal. O demônio havia fugido" (pp. 337s).

 

Quanto à demitologização, nega simplesmente a ação do demônio e elucida os casos de possessão como estados doentios ou como fenômenos parapsicológicos. O Pe. Oscar Quevedo é muitas vezes citado como arauto desta última interpretação.

 

Rabuske critica as duas modalidades assim descritas por terem índole demasiado individualista; levam em conta apenas a pessoa do possesso sem considerar o papel da sociedade na origem do fenômeno de possessão. São palavras do autor:

 

"Não se trata de desqualificar as duas linhas de práticas históricas, mas de dar um passo adiante, já que o combate puro e simples contra o fundamentalismo ou contra a demitologização não é muito alentador em seus resultados. Não é necessário submeter-se ao dilema de optar por um ou outro tipo de prática, visto que ambas acabam no impasse, em beco sem saída. Em vez de uma postura apologética tanto contra o fundamentalismo quanto contra a demitologização, é mais urgente o esforço rumo a uma nova prática. Neste livro, propomos uma terceira possibilidade: uma interpretação sociopolítica, que não tem as pretensões de exclusividade, mas que respeita a contribuição de outras áreas, num verdadeiro espírito interdisciplinar" (pp. 343s).

 

Qual seria essa terceira possibilidade? - Rabuske julga que possessão hoje em dia é o estado de opressão em que se encontram as classes humildes do povo desprovido de alimentação, remédios, terra e teto; tal ordem de coisas se torna diabólica ou "possessa". A solução não é um ritual religioso, mas uma ação mais eficaz das autoridades governamentais: "A pesquisa antropológica tem constatado que, nas diversas religiões, possessão pode ser recurso mediante o qual mulheres e grupos de pessoas oprimidas e carentes de atenção procuram se fazer valer diante de seus maridos e superiores" (p. 311).

 

- Conclui o autor:

 

"Se, como cristãos, estamos enfileirados com o movimento popular, como instituição eclesial, somos chamados a agirem defesa das massas excluídas, como porta-vozes dos que continuam a não ter voz em nossa sociedade. E, sendo a política o braço secular da economia, o posicionamento das instituições eclesiais precisa reforçar aquilo que constitui os objetivos e as metas do movimento popular: mudança de rumo nas políticas sociais, com medidas e prioridades que venham ao encontro dos interesses e necessidades populares. Trata-se de uma conseqüência lógica, que exige conversão também por parte de nossas Igrejas como instituições, para que possam atualizar a prática exorcística de Jesus, a fim de ajudar a erradicar as causas dos males demoníacos e não servir de cimento ideológico que ajude a manter a submissão das massas populares" (p. 354s).

 

Surge assim a pergunta:

 

2. Que dizer?

 

O livro de Irineu Rabuske é rico em informações, mas apresenta-se ambíguo em suas afirmações. Algumas passagens sugerem que o autor considera os exorcismos praticados por Jesus como meros símbolos da atividade sociopolítica do Messias; conseqüentemente não haveria que praticar o ritual exorcista hoje em dia, mas sim procurar combater as injustiças sociais "diabólicas" que oprimem atualmente o povo humilde.

 

Em outras passagens o autor reconhece a posição da Igreja Católica, que admite a existência do Maligno, a possessão diabólica e a validade do exorcismo após atento exame dos sintomas ocorrentes, mas é um tanto cético a respeito, como se depreende do texto seguinte:

 

"As Igrejas pentecostais se caracterizam por essa prática fundamentalista, mas não são as únicas a realizá-la. Também na Igreja Católica está profundamente enraizada tal prática, alicerçada em pressupostos dogmáticos a respeito da existência real do demônio. Com base nessa doutrina tradicional, foi elaborado em 1614 o Ritual do exorcismo, que, com mínimas alterações, esteve em vigor até o presente momento. No dia 26 de janeiro de 1999, foi oficialmente apresentada em Roma a versão renovada desse ritual, que não contém nenhuma novidade, pois continua a afirmar a existência real do demônio e a possibilidade da possessão.

Essa atitude do Magistério católico propicia, ao menos de modo indireto, o desenvolvimento de práticas fundamentalistas" (pp. 338s).

 

Em suma, numa apreciação objetiva e serena dizemos o seguinte:

 

1)  É plenamente válida a tese de que aos cristãos compete renovar as estruturas sociais, removendo as situações injustas.

 

2)  Esta tese, porém, não pode ser deduzida dos relatos evangélicos de exorcismo. Estes não podem ser tidos como meros símbolos da ação sociopolítica de Jesus sem que se cometa violência contra o texto bíblico.

 

3)  O demônio é um ser real ou um anjo que cedeu ao pecado da soberba e atualmente recebe de Deus autorização para tentar os homens, cuja fidelidade pode ser assim comprovada.

 

4)  Existe a possessão diabólica, ao menos nas narrativas dos Evangelhos. Jesus praticou exorcismos; não terá fingido admitir a possessão diabólica somente para se adaptar a falsa crendice de seu povo. Ele veio para dar testemunho da verdade, e não para confirmar falsas concepções de sua gente; cf. Jo 18, 37.

 

5)  No decorrer da história da Igreja registraram-se numerosos casos ditos "de possessão diabólica (1). Outrora a Igreja admitia mais facilmente haver então a intervenção do Maligno. Em nossos dias, porém, visto que muitos fenômenos "diabólicos" são explicados pela Parapsicologia, a igreja é mais reservada diante dos fatos estranhos e procura, antes do mais, os esclarecimentos das ciências humanas. Somente em casos inexplicáveis pelo saber humano se pode pensar em aplicar o exorcismo. Este é executado por um sacerdote virtuoso e douto designado pelo Bispo. Ver Código de Direito Canônico:

 

Cân. 1172 - § 1. Ninguém pode legitimamente fazer exorcismos em possessos, a não ser que tenha obtido licença especial e expressa do Ordinário local.

§ 2. Essa licença seja concedida pelo Ordinário local somente a sacerdote que se distinga pela piedade, ciência, prudência e integridade de vida.

 

Ver também o Catecismo da Igreja Católica, n. 391.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] Ed. Paulinas, São Paulo 2001, 130 x 200 mm, 415 pp.


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