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Mediação e Corpo de Cristo

 

Pergunta — Já vi duas explicações católicas sobre a mediação de Jesus – tão falada pelos protestantes – e queria saber qual é a correta: 1° Eu assisti ao vídeo de um padre falando que nós somos mediadores (inclusive os santos e Maria), porque todos fazemos parte do Corpo de Cristo, que é a Igreja. Por isso, quando se fala em Jesus como único mediador, fala-se d’Ele “inteiro”, incluindo seu Corpo Místico, que é a Igreja. Já ouvi também (se não me engano de um padre) que a Mediação de Jesus é única, porque Ele é nosso Mediador advogado, e foi apenas por meio d’Ele que fomos reconciliados com Deus Pai. Mas todos podem ser mediadores da graça, rezando uns pelos outros. Qual é a versão correta defendida pela nossa doutrina?

 

Resposta — Os protestantes negam toda outra mediação fora a de Cristo, porque na verdade não entenderam direito nem sequer esta mediação única e necessária.

 

Por que Jesus Cristo é o único Mediador? Porque, como está dito pelo próprio consulente — que ouviu isso, como ele supõe, de um sacerdote — foi somente por meio de Jesus Cristo que fomos reconciliados com Deus. Com efeito, depois do pecado de nossos primeiros pais, Adão e Eva, a humanidade se encontrava rompida com Deus. Seu pecado tinha uma gravidade infinita, pois a gravidade de uma ofensa se mede pela grandeza e dignidade do ofendido. Assim, sendo Deus infinito em sua dignidade, o pecado de Adão, que foi transmitido a todos os seus descendentes, tinha uma gravidade infinita; exigia, portanto, uma reparação também infinita. Ora, nenhum homem podia oferecer tal reparação. A humanidade se encontrava, pois, num impasse. O próprio Deus resolveu divinamente esse impasse: a segunda pessoa da Santíssima Trindade — o Filho — encarnou-se para oferecer a reparação necessária: sendo Deus e Homem, sua reparação teria um valor infinito, e superaria a gravidade da ofensa. Tal foi o mérito do sacrifício redentor de Cristo: Ele comprou a nossa salvação derramando seu Sangue, infinitamente precioso, na Cruz.

 

O sacramento da Penitência ou Confissão reconcilia o pecador com Deus

Precisamente aqui entra a incompreensão dos protestantes: eles julgam que uma vez consumado o sacrifício da Cruz, estava tudo resolvido e encerrado. Entretanto, não é precisamente assim: os méritos alcançados por Cristo — que Ele pôs ao alcance de todos os homens — precisam ser aplicados a cada homem, o que se faz pelo sacramento do Batismo, que apaga o pecado original e nos reconcilia pessoalmente com Deus.

 

Uma comparação ajudará o leitor a compreender este ponto. Quando uma nação rica e generosa envia socorros para outra nação devastada por um cataclismo, esses auxílios precisam depois chegar a cada uma das vítimas. A primeira operação é de obter e enviar o socorro; a segunda, de distribuí-lo. E estamos vendo, por acontecimentos recentes, como, entre a ajuda enviada e a chegada aos que dela necessitam, muitas vezes se interpõem saqueadores ou aproveitadores inescrupulosos... As duas fases são, pois, bem distintas.

 

Assim também, quanto à graça que Jesus Cristo nos alcançou com sua morte na Cruz, é preciso aplicá-la a cada homem individualmente. Em concreto, é preciso que os pais apresentem seus filhos para receber o benefício do Batismo. Ora, quanta negligência ou omissão notamos neste ponto, tanto maior quanto mais a sociedade vai ficando laica e ateia! Daí a necessidade do apostolado católico, que lembre a esses pais omissos a necessidade e urgência de proporcionar aos filhos a recepção do sacramento que os reconcilia com Deus.

 

Ademais, quando um homem comete um pecado mortal, ele volta a romper com Deus. Não perde o caráter de cristão, que o Batismo imprimiu em sua fronte de maneira indelével, mas perde a graça santificante que o tornava amigo de Deus e herdeiro do Céu. Aí entra o sacramento da Penitência ou Confissão, que reconcilia o pecador novamente com Deus. Jesus Cristo deu aos sacerdotes o poder de perdoarem os pecados em seu nome, aplicando ao pecador os méritos infinitos do sacrifício redentor da Cruz.

 

Tal é o sentido da Mediação única de Cristo, que só a Ele compete e a nenhum outro membro do Corpo Místico de Cristo, a nenhum Santo.

 

Como fica então a mediação universal de Nossa Senhora? Todos os méritos pessoais da Mãe de Deus têm valor enquanto unidos aos méritos infinitos de seu Divino Filho. Sobre o papel único de Nossa Senhora, como Medianeira de todas as graças e Co-Redentora (tese que, esperamos, seja declarada dogma pela Igreja), muito haveria a dizer, com o que se encheriam páginas e páginas de nossa revista, a qual, aliás, não tem se omitido de tratar abundantemente da matéria.

 

O Corpo Místico de Cristo

 

Resta explicar ao consulente a pergunta que ele faz sobre o Corpo Místico de Cristo. Este foi o tema de uma carta encíclica do papa Pio XII (datada de 29 de junho de 1943), precisamente com esse título. O Papa mostra como a doutrina do Corpo Místico de Cristo — que é a Santa Igreja — se presta às mais altas e sublimes considerações. Mas, como todos os temas muito alcandorados, tal doutrina recebeu também interpretações gravemente errôneas, claramente denunciadas e severamente reprovadas na encíclica.

 

No que se refere à consulta do missivista, sem dúvida se pode afirmar que, tendo Nosso Senhor Jesus Cristo entregue à Igreja os tesouros infinitos dos seus méritos, para que os distribua a todos os homens através do seu ministério sagrado, ela participa da condição de Mediador único de seu Divino Fundador. O mesmo vale para Maria Santíssima. Vale também para todos os Santos, e inclusive para os fiéis comuns, em estado de graça, unindo seus méritos finitos aos méritos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Como observação complementar, lembremos que o pecado mortal não exclui o pecador do Corpo Místico — como Pio XII lembra em sua encíclica — mas tornam-se membros mortos que, se não se arrependerem em tempo, são galhos secos destinados ao fogo eterno.

 

Não sei se o vídeo sobre o Corpo Místico de Cristo a que o missivista assistiu faz todas as matizações necessárias. Em todo caso, ficam aqui estas poucas indicações para ele se situar no delicado assunto. E melhor fará se procurar o texto completo da referida encíclica, disponível no site da Santa Sé (vatican.va) (*), que apresenta a correspondente tradução portuguesa do original em latim. Será uma leitura muito enriquecedora e de grande atualidade.

(*) Artigo #1068

 

 

Monsenhor José Luiz Villac

Fonte: Revista Catolicismo


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